[CRÔNICA DE CINEMA #4] "JURASSIC WORLD: REINO AMEAÇADO" (2018)

quinta-feira, junho 28, 2018


Em 2015, eu escrevi um texto acerca do incrível "Jurassic World", um filme que introduziu às novas gerações o encantamento, os questionamentos e aventura do universo criado por Michael Crichton e levado às telas de cinema, pela primeira vez,  por Steven Spielberg, em 1993. Era um filme bastante saudosista, mas que atualizava a série com novas questões, novos personagens. Era como ter novamente aquele encantamento inicial. Era maior e bastante respeitoso as suas raízes.

Cerca de três anos depois, chegou aos cinemas a continuação intitulada "Jurassic World: Reino Ameaçado" (Jurassic World: Fallen Kigdom). Filme este que pude conferir ontem (27/06/2018) nos cinemas, e nesta crônica gostaria de falar sobre algumas características deste filme, além de algumas questões que envolve um comportamento dentro de um cinema.

Aviso, contudo, que em alguns momentos haverá alguns spoilers

JURASSIC WORLD: UMA NOVA ERA

Eu tive a oportunidade de ir ver o filme novamente com os meus pais e isto é algo importante já que foram eles que me apresentaram a esse universo, me permitiram me envolver e incentivaram. Os filmes anteriores foram parte da minha infância e lembro muito bem o quanto era incrível quando eles passavam na TV e minha família inteira se juntava para assistir.

A questão era se o novo filme conseguiria ir além e me apresentar algo novo. Se ele funcionaria como diversão e como cinema. Assim, acredito que a franquia sempre será sinônimo de diversão, porém como cinema a franquia precisa ter muito cuidado para não se perder ou mesmo não saber criar ou manter um determinado clima.

Ao sair do cinema eu percebi o quanto o inicio do filme foi uma decepção. Praticamente os trailers já entregavam tudo o que ali acontecia, porém ver tudo aquilo sendo destruído teria muito mais impacto se os alívios cômicos não existissem. O personagem de Justice Smith (Franklin) enfraquece as cenas. Uma cena de encantamento com um braquiossauro termina de uma forma besta por conta dele. Seu medo exagerado nos tira do filme, faz rir (isso se ele fizer você rir) quando, na verdade, deveríamos está temendo pela vida dos dinossauros e dos personagens principais. Esse é um mal que advém da fórmula Marvel de fazer cinema. Nunca ser sério demais. Nunca deixar o clima pesar. Sinceramente, isso é subestimar seu público. Fazer algo ser divertido não é só fazer rir. Os alívios cômicos devem vir no momento certo para que não sejam desnecessários ou joguem contra a narrativa. Nesse filme, isto acontece, principalmente no inicio.

Um exemplo de alívio "cômico" inteligente é a personagem Zia Rodriguez (Daniela Pieda) que é inteligente, sarcástica, irônica nos momentos certos, com muita personalidade para inclusive ser uma protagonista. Eu gostaria muito de ver mais dela em cena. 

Em contrapartida, o filme me encanta por arriscar em apresentar uma história com pitadas de terror e com mais ficção científica. A história bebe muito do seu material fonte ao tratar sobre a genética, sobre a forma como o ser humano lida com a natureza, e isto pode ainda ser melhor explorado. Basta querer. O final abre possibilidades a serem exploradas com riqueza e que podem superar muito a simples ação barata de dinossauros perseguindo a vida humana ou vice versa, algo próximo talvez do que foi a franquia "Planeta dos Macacos", com um pessimismo mais suave, talvez.

MOMENTO DE SPOILERS


Pule este trecho se você ainda não viu ao filme. Fica por sua conta e riscO filme traz de volta a ideia de um dinossauro geneticamente modificado como o grande vilão do filme. Isso é interessante, pois vai muito de encontro com a concepção de Spielberg de não transformar seus dinossauros em monstros. Os dinossauros feitos para o parque são vistos como animais em sua essência, mesmo que eles já sejam um tipo de clone, e nunca como algo que precise ser abatido. Porém, quando criamos algo não natural como a Indominus Rex ou o IndoRaptor eles permitem que isto seja visto como monstruosidade, algo que precisa ser morto. Isso é interessante. É uma máquina de guerra, não é um animal. Ainda que isto possa ser claramente relativizado com razão. Afinal, ali temos um coração batendo, um cérebro pensante. 

Outro fator interessante neste filme é a ideia de clonagem humana. A personagem Maisie é uma das melhores do filme e com o acréscimo dela ser uma humana clonada a torna ainda mais interessante. É injetar na franquia algo em um novo patamar. Em uma das cenas finais, os dinossauros resgatados da ilha estão presos dentro de um salão com jaulas, com o risco de serem mortos por um gás que no meio da confusão foi liberado. A decisão fica para Owen ou Claire: Libertá-los ou não? Caso sim eles entrariam no mundo dos humanos e não haveria mais como controlar. Claire, ainda que tentada a fazer, diante do seu dilema moral e civil decidi não fazê-lo por puramente medo. Contudo, Maisie, já sabendo que é um clone feito com a mesma tecnologia usada para criar os dinossauros, os liberta.

A fala da personagem mostra bem uma concepção que, talvez, no momento muitos nem se permitiram pensar. Se ali estivessem uma pequena dezena de crianças clonadas que colocassem em risco muitas da questões morais dos seres humanos, elas deveriam ser deixadas para morrer? Afinal não seriam elas humanas também, mesmo sendo fruto de um procedimento genético? Não pareceria certo, não é? Então, por que pareceria certo e sensato fazer isso com animais, mesmo que estes já estivessem extintos e fossem muito perigosos? Eles não continuariam sendo animais? Seres vivos? Mesmo que fossem fruto de um experimento genético?

Por que o ser humano não tem respeito pelos seres vivos que não sejam humanos? Por que só queremos que algo seja bem tratado se isso for humano? Por que a natureza com suas inúmeras formas de vida podem ser exploradas sem qualquer tipo de solidariedade? Se não é humano, não importa? São questões que perpassaram pela minha mente durante essa cena, que pra mim foi a melhor do filme, a que mais me gerou impacto.

FILME NARRADO por espectadores - UM BREVE REVOLTA

As pessoas não se permitem refletir sobre algumas coisas quando estão assistindo a esses filmes.Talvez seja fruto da edição do filme ou seja mesmo a falta de interesse de querer se debruçar sobre questões mais sérias, dentro de um filme de ação e ficção. Não estou dizendo que todo mundo tem que ir pro cinema para problematizar alguma coisa, as vezes é puramente diversão. Mas, quando um filme te apresenta algo desse tipo, talvez parar pra pensar sobre seja um exercício que pode nos enriquecer intelectualmente.

Porém, não é exatamente isto que me incomodou nesta sessão. Eu estava do lado de um casal que simplesmente narrava o filme: "Olha, ele pegou o ovo", "Agora ele saltou, agora ele vai cair", "Ela se deitou", "Ele entrou, sai daí". Assim, existe uma diferença muito grande de você fazer um comentário, expressões de tensão, sustos, risos involuntários, e narração de coisas óbvias que você está vendo. O cinema é algo visual. Eu não preciso de alguém me dizendo o que está acontecendo na tela, se eu estou vendo. Isso incomoda. Tanto é que um filmes extremamente explicativo e didático é considerado pobre narrativamente.


Todos tem direito de fazer o que quiser, só que a nossa liberdade termina quando a do outro começa. Se você é alguém que gosta de ficar falando durante filme, crie o hábito de fazer isso de forma a não atrapalhar aqueles que não gostam disso. Muitas vezes, filmes são estragados por esse tipo de pessoa que não sabe ficar quieto, calado. Você pode fazer um comentário ou outro, mas falar o filme inteiro e pior narrá-lo? É algo extremamente chato e inconveniente. 

É como eu disse, as pessoas tem o direito de se divertir, fazer comentários, se divertir da sua forma. É normal e está tudo bem, mas desde que isso não atrapalhe a experiência do outro. Muitos vão dizer que isso é frescura ou chatice de minha parte, mais experimente assistir a um filme que uma pessoa está o tempo todo falando do seu lado. Principalmente um filme que você quer muito assistir e se envolver.

Eu como expectador crio um sistema de defesa para não discutir com essas pessoas no cinema. Eu tento focalizar a minha mente inteira para o filme o máximo que eu posso e, às vezes, dou um pequena chamada de atenção gentilmente. Mas, tem hora que não dá. Talvez, isso tenha atrapalhado a minha experiência em algumas partes desse filme. Talvez, a tensão que o diretor quis proporcionar não tenha me alcançado de uma forma satisfatória por conta de ter comentários altos no meu ouvido durante a projeção. Por favor, se você faz isso, me diga por que você o faz? 

 Desabafo feito.

AFINAL, O FILME VALEU A PENA?

O filme é previsível? Bastante.
O filme inova? Em algumas questões.
O filme é bom? É bom, mas prefiro o primeiro.

"Jurassic World: Reino Ameaçado" é um filme divertido, com momentos de tensão incríveis. É um filme que têm personalidade apesar de ainda ser bastante saudosista e previsível. Estabelece referências de forma inteligente a partir de jeitos de se filmar, posicionamento de câmeras, falas. Coloca novas questões e abre caminhos que podem ser bem explorados na mão de um bom roteirista e um bom diretor. 

Se divirta com esse filme sem atrapalhar as outras pessoas. Não se permita sair dele e de nenhum filme sem pensar em alguma coisa importante que ele traga nem que seja por cinco minutos. A franquia Jurassic Park é algo incrível que pode te oferecer mais do que apenas uma diversão escapista.

Por Jônatas Amaral

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