OS OLHOS DIZEM...


Costumeiramente ele se olhava no espelho. Houve o tempo em que se achava magro demais, com ombros largos demais e com um rosto meio estranho, sem falar de um cabelo liso escorrido que o fazia parecer estranho. Houve outro tempo em que ele se olhava ao acordar e amava seu porte físico meio atlético fora de forma, mas na medida certa. Além desse, houve o tempo em que só se achava um garoto charmoso e legal.

Hoje o tempo é outro e tudo que ele consegue ver são os olhos vermelhos envoltos pelas pálpebras que se dividem numa tonalidade meio escura, negra, cinza talvez. Ele não entende. Ele só queria ver aqueles olhos castanhos brilhando naturalmente e não o brilho das lágrimas pesadas. Queria ver os olhos sorrindo do jeito que sempre foram. Queria ver o olhar travesso, gentil e um tanto inocente que sempre teve. Não aquele olhar de cansaço, tristeza e de alguém que precisa de abraços.

A sua esperança é o céu. 

Sua esperança é de que seja só mais um tempo que logo passará. Afinal, a vida não é feita de fases? E as fases não passam?

"Talvez", pensa ele, "tenha sido as minhas escolhas que levaram a me encarar de uma forma pouco orgulhosa na frente do espelho." Parece loucura, pois ele ama o que faz, ama o que estudou, ama o que estuda, se envolve demais, ajuda demais, faz demais, ama demais... No fundo quem escolhe não sentir, sente mais que o dobro. Na maioria dos casos, os olhos dizem um pouco mais da metade do que precisamos saber sobre o que as pessoas sentem, contudo não aprendemos a ler o olhar das pessoas. Aprendemos apenas a olhar e não se importar. Aprendemos a olhar para o lado, para um ponto cego nos rostos das pessoas. Aprendemos ainda menos a olhar nos nossos olhos e nos enxergar neles.

Por J. A.