[ #OSCAR2017 ] "A CHEGADA" (ARRIVAL, 2016) : Um filme de reflexões intrigantes

domingo, janeiro 29, 2017


“A Chegada” é um filme surpreendente por inúmeros motivos. Toda a surpresa se inicia por conta de seu trailer que oferece uma visão, talvez, equivocada do que realmente o filme é. O trailer é carregado de uma sombra de mistério que parece presumir grandes sequências de ação, e este não é um filme de ação, muito menos um filme de catástrofe causada por alienígenas. É mais para complexo e intimista.

O filme é baseado em um conto de Ted Shiang, contido no livro “A História da sua vida”, publicado no Brasil pela Editora Intrínseca. Temos aqui uma ficção científica inteligente e complexa em seus conceitos, utilizando de artifícios para alcançar as grandes massas. A história se inicia quando 12 naves alienígenas pousam em 12 países diferentes, e ninguém consegue descobrir o propósito deles aqui na terra. Desta forma, a Doutora em Lingüística Louise Banks é recrutada para tentar traduzir a fala dos seres. Ao descobrir que seria impossível traduzir a partir da fala dos seres, ela tenta uma abordagem complexa e difícil que envolverá um complexo sistema de escrita dos alienígenas. Neste meio tempo, o mundo em busca de respostas, que não chegam, começa a sucumbir ao medo do desconhecido.

Diante desta premissa, teremos um filme focalizado na Louise onde seus medos, suas inseguranças e suas íntimas visões vão permear todo o processo de descoberta de um propósito sensacional e diferente.


O grande diferencial deste filme está num roteiro e numa edição primorosa que nos leva a refletir sobre o poder da linguagem, da paciência, e da nossa perspectiva de tempo. Afinal, o uso da linguagem nos une e nos distancia ao mesmo tempo, agora pense: e se tivéssemos uma linguagem universal? Já houve uma tentativa mal sucedida de criar isto, se chama Esperanto. O filme nos faz refletir sobre isto. E mais, e se você tivesse o poder de ver toda a sua vida e conhecê-la do inicio ao fim?


A história é interessante em quase todo o seu desenrolar, falhando apenas em alguns momentos em que parece haver cenas demais para dizer e mostrar a mesma coisa ou simplesmente nada, deixando o filme, às vezes, um pouco repetitivo e cansativo. Porém, toda a trama que envolve a descoberta de uma nova língua e forma de pensar é precisa e envolvente. Contudo, é um filme que necessita de atenção, e de um pouco de reflexão após a sessão para processar tudo o que você ver. Pode não funcionar para alguns. A ação é apenas sugestiva, a ameaça crescente é dita não mostrada. 

Amy Adams as Dr.ª Louise Banks 










O filme, em termos de atuação, é da Amy Adams. A atuação dela é forte e segura, afinal Louise é uma personagem contida, logo toda a atuação é muito interna, focada nos sentimentos e na dificuldade de não conseguir compreender tão rápido, tanta coisa a sua volta e na sua mente. Acredito que de fato a não indicação da atriz ao Oscar 2017 é injusta. Pelo menos até então.

Aos amantes de linguística, como eu, entenderão, talvez, com mais facilidade todo o processo que envolve o contato com os aliens promovido pela Louise. A construção do significado e sentido de um sistema de escrita. A importância do diálogo e da proximidade para haver o entendimento mútuo. 

O visual do filme também é um destaque, oferecendo cenas de uma confusão calculada para criar alguns conceitos científicos intrigantes e, por mais que você pense, difíceis de explicar. Neste caso, o mistério é uma dádiva. 

Por fim, “A Chegada” é um filme inteligente e enigmático, que precisa de uma dose de atenção para ser totalmente entendido. Um filme de ficção científica que precisa entrar na sua lista.

Por Jônatas Amaral

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