[RESENHA] "UMA VIAGEM PESSOAL PELO CINEMA AMERICANO" DE MARTIN SCORSESE E HENRY WILSON

MARTIN SCORSESE '"O filme é um doença", disse Frank Capra. "Quando infecta a corrente sanguinea de alguem, ele toma posso como o hormônio número um; comanda as enzimas; dirige a glândula pineal; age como Iago com  a sua psique. Assim como acontece com a heróina, o antidoto ao filme é mais filme." 
Nos últimos meses tenho me dedicado bastante aos livros sobre cinema. Esta vontade imensa de continuar me aventurando em livros de história e teoria sobre cinema chegou ao seu ápice desde o último CONACINE que aconteceu na segunda quinzena de julho. Em uma dessas palestras foi dito que não só assistindo filmes você aprende sobre cinema, mas também através da teoria e dos livros sobre este assunto. Este ensinamento se aplica também a questões sobre literatura.

Quem tem suprido esta minha vontade tem sido a Biblioteca Central da UFPA, onde estudo. Em uma pequena estante de livros eu encontrei este livro denso e pesado (literalmente). Um livro que mais parece um roteiro. Porque parece um roteiro? Porque afinal ele é uma adaptação de um roteiro de documentário feito por Martin Scorsese como parte das comemorações do centenário da sétima arte. O diretor levou o projeto tão a sério que fez uma obra extremamente pessoal. Então, aí está a explicação do titulo do livro.


O livro é dividido em capítulos onde a figura do diretor é vista sob diversos ângulos, sempre baseada nos filmes que mais impactaram Scorsese. Desde o inicio o diretor afirma que irá contar uma trajetória que envolve muito da sua vivência e experiência como espectador de cinema. É incrível, ao final do livro o diretor dizer que a viagem irá parar ali pelos 1960, afinal a partir deste momento ele mesmo começa a produzir os filmes e que seria estranho contar aquela viagem de dentro. Apesar de ser algo que me deixou curioso.

Primeiramente é colocado os dilemas do diretor. Como ele era visto, a sua relação com os estúdios. Sua forma de filmar, a forma de colocar sua marca ou só as marcas do estúdio. Para que, então, se possa falar sobre o "diretor como contador de histórias", onde é dado enfoque em três gêneros: o filme de faroeste, gangster e os musicais. Três gêneros que revolucionaram a industria e foram marcantes até hoje. O roteiro do livro trata das especificidades desses gêneros e a forma que diversos diretores davam à eles com o passar dos anos. 

FRANK CAPRA (1979) [...] Eu era o inimigo do grande estúdio. Acreditava na divisa 'um homem, um film'. Acreditava que um homem deveria fazer o filme e que o diretor deveria ser esse homem. Um homem deveria fazê-lo - não importa quem - mas o diretor era o mais indicado. Eu simplesmente não conseguia aceitar a arte como algo feito por um comitê. Só conseguia aceitar a arte como extensão de um indivíduo.


Em seguida, vemos o diretor como ilusionista, contrabandista e iconoclasta. O primeiro tem haver com a capacidade dos diretores de iludir, de fazer gerar na tela com o auxilio da câmeras efeitos e sentimentos únicos. Não só sobre os efeitos especiais que ilustram filmes como "2001: uma odisséia no espaço" de Kubric, ou "Parque dos Dinossauros" de Steven Spilberg, mas sim a forma de aterrorizar, de gerar reflexões. O diretor contrabandista é aquele que trabalhava na industria do cinema, mas enfrentou o sistema. Fazia seus filmes de estúdio e seus filmes independentes, o que é chamado de Filme B. E por fim, o diretor iconoclasta, aquele que deixou marcas. Icônicos. 

A ideia da edição era trazer o documentário para as páginas e como falar de cenas sem que nós pudêssemos vê-las? A solução? Imagens. Ricamente ilustrado com os filmes citados e cenas bem escolhidas de acordo com àquela que está sendo comentada. E também temos descrições de roteiros de diversos filmes para que você possa entender do que os autores e os depoimentos estão falando. Isto é um ponto alto e baixo da edição. Ela funciona de acordo com o que se queria, contudo em muitos momentos a mistura de imagens e descrições de roteiros deixa a leitura truncada. Pode ser uma escolha de cada leitor pular ou não as imagens e depois voltar à elas.

Algo que enriqueceu este trabalho são os depoimentos de diversos diretores como Kazan, Orson Welles, Ida Lupino, Capra, entre outros. Depoimentos retirados de entrevistas, cenas realmente inspiradoras, ver a visão desses diretores sobre o cinema que faziam, as criticas ao sistema que eles de certa forma faziam parte.

ELIA KAZAN (1981) A câmera é mais do que um instrumento de gravação;ela é um microscópio. Ela penetra, vai ao interior das pessoas e nos mostra seus pensamentos mais íntimos e ocultos. Eu consegui fazer isso com os atores. Revelei coisas que os atores nunca sequer souberam que estavam revelando sobre si próprios.
O livro é extremamente pessoal e não linear apesar de seguir certa lógica. Fazendo com que o leitor tenha em mãos uma fonte de pesquisa primária para filmes, movimentos, diretores e história. Não assistir o documentário do qual este livro se originou, mas através das páginas dele pude conhecer mais da visão de diretores sobre a construção da maior industria cinematográfica do mundo.

É um livro para aqueles que gostam de cinema e que querem conhecer mais. Ir ao mais profundo. 

ORSON WELLES ( 1970) Sabe que sempre gostei muito de Hollywood? O problema é que não houve reciprocidade.

POR JÔNATAS AMARAL

Jônatas Amaral

Sou Jônatas Amaral, 22 anos. Paraense, Brasileiro. Formado em Letras - Língua Portuguesa. Um sonhador por natureza.

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