[RESENHA] "Eu e o Silêncio do meu pai" de Caio Ritter




“Eu e silêncio do meu pai” possui um tema que nos acompanha séculos após séculos: o relacionamento de pais e filhos. A história desse livro não é linear e busca através de suas páginas de breves relatos, fazer refletir sobre como a ausência, o silêncio, a falta de diálogo transformou a vida de um menino.

Não é uma história de enredo prático que se possa definir em uma simples sinopse, mas basicamente trata-se das reflexões e memórias de um garoto pobre que vive com dois irmãos, a mãe, a tia chata e seu pai tão calado, com sérios problemas com o álcool. O garoto procura intensamente um relacionamento com pai, qualquer sinal de apreço, companhia com este. Contando memórias do dia-a-dia de um garoto, seu primeiro dia de aula, seus aniversários, as perdas e os ganhos, além de mostrar como nasceu a sua paixão pela leitura e escrita. Tudo isto em textos curtos ao longo de suas cem páginas. O garoto nesta jornada deverá aprender a amar seu Pai.

“Escrever é sempre trazer um pouco do que a gente foi. Como faço agora ao tentar ser memória de um tempo findo, mas ainda vivo em mim.” (P.58)

Durante a leitura deste livro me surpreendi com o caráter de autobiografia e memórias que não me era esperado, não que se possa defini-lo desta forma, não que este tenha sido pensado desta forma, contudo a obra é cercada de elementos comuns à vida pessoal do autor (como se pode conferir na biografia do autor). 

A narração escolhe mostrar mostra frustração do personagem através da escolha de fatos específicos da vida do menino. Fato estes que mostra as principais características do pai e da dificuldade deste para se relacionar com os filhos. Alguns momentos, conforme o garoto vai crescendo, apesar da admiração pelo pai, o garoto procura guardar em sua memória aquilo que não quer fazer com seus filhos. Desta forma é interessante notar que em muitos momentos durante as reflexões do personagem, este cita os filhos e mostra as mesmas situações, mas de forma diferente, trazendo a tona o quanto aquelas experiências marcaram sua vida.

“Por vezes, crianças esquecem maldades. Por vezes, são como cães que, mesmo a mão do dono batendo neles, expressam a maior fidelidade. São capazes de proteger com a própria vida aquele que os maltrata.” (P.61)

Ilustrações de CASA REX
A obra se estrutura desta forma: Temos dois períodos de tempo/espaço, o primeiro trata-se da infância e inicio da adolescência deste personagem sendo apresentado através de lembranças por um narrador onisciente em terceira pessoa; o segundo trata-se do personagem nos dias atuais, já adulto e com filhos, refletindo sobre essas lembranças. A diagramação ora ajuda, ora atrapalha para percebermos esta diferença, mas que é evidenciada obviamente pelas conjugações dos verbos. 

Os personagens não possuem nomes, excetos alguns secundários como a professora e a tia, fato este muito importante, pois por ser um assunto muito comum de muitas famílias, pode-se colocar a eles os nossos nomes, como se estas fossem nossas lembranças, gera uma identificação intima desses personagens. Algumas informações sobre o personagem principal são encontradas, por exemplo: este tem o mesmo nome do pai, nasceu no dia 24 de dezembro, é um escritor e mora em Porto Alegre. Contudo, as informações mais precisas das histórias ficam em segundo plano diante das profundas reflexões percebidas. 


“Este gesto – morder a mão, a fim de tatuar a nódoa do sofrimento – é algo que ele vai repetir constantemente em sua infância. E sempre escondido dos pais e dos irmãos. Ninguém verá sua dor. Ela será só dele” (P. 17)

O livro possui uma linguagem acessível, mas sem deixa de ser cuidada. Muitas frases curtas carregam significados grandiosos dentro do contexto nas quais elas se inserem. É o muito em pouco. Outro fato importante quanto a questão da construção narrativa é que este livro pode ser chamado de livro alma, termo que eu criei para denominar livros que o seu grande foco é navegar pela alma humana, pelos traumas, sentimentos, te fazer decifrar, refletir sobre. 

"Eu e o Silêncio do meu pai" de Caio Riter, Editora Biruta. 2011.

As escolhas lexicais são muito importantes no livro, pois a tendência seria de odiarmos o pai, diante da tristeza imensa que este expõe o filho, contudo houve o cuidado na construção do personagem através da linguagem de torna-lo humano. É possível perceber que o personagem tem um passado, um estilo de criação, uma doença. Apesar dos erros, há certa identificação com o personagem. A única personagem carregada de uma força sombria é a tia sempre acompanhada de péssimos adjetivos.

Desta forma, o livro é bastante melancólico e triste, contudo é de uma beleza reflexiva incrível sem deixar de ser acessível. Um livro melancólico, mas lindo de ler. Com reflexões profundas, escritas com palavras simples que surgem do coração.

“Crianças têm lá suas sabedorias, seus entendimentos de vida” (P.52)


Por Jônatas Amaral

Este resenha faz parte do BOOKTOUR Promovido pela Editora. 
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HISTÓRIA MUDA

Jônatas Amaral

Sou Jônatas Amaral, 22 anos. Paraense, Brasileiro. Formado em Letras - Língua Portuguesa. Um sonhador por natureza.

9 comentários:

  1. Olá Jônatas! Que linda resenha. Estou ansiosa para ler este livro. hehe E sua resenha está bem completa, me fez ficar com aquela curiosidade ansiosa. Louquinha para chegar a minha vez.

    Parabéns pela resenha. Lindo seu blog!
    Abraços!

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    1. Olá Vanessa,
      Eu espero que goste muito deste livro, da mesma forma que eu gostei de apreciá-lo.
      Tamo Junto neste BookTour.

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  2. Olá Jônatas!!!
    Tudo bem?
    Vim aqui te fazer a primeira visita!
    Você está na lista do Booktour "A Boneca Fantasma".
    Vi que você é um jovem cristão.
    Xiiii!!! kkkk Acho que você não vai gostar muito da boneca. Ela não tem nada de cristão.
    Abraços.

    http://filosofodoslivros.blogspot.com.br/

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    1. Olá Fernando,
      Sou cristão, mas um leitor também. talvez eu goste talvez não, mas é isso que é a graça dos livros: o risco.
      Fico feliz em estar neste booktour, vamos ver no que dá.

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  3. Oi!
    Eu não conhecia esse livro, mas adorei a resenha.
    Faz muito tempo que não leio nada de relação entre pais e filhos, acho que vou ler esse. ^^
    Beijo

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    1. Vale muito a pena Daniela!
      Seja muito bem vinda! Volte sempre!

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  4. Oi Jônatas, caraca você foi fundo heim!?!?
    Conseguiu traduzir em palavras todo o drama vivido pelo personagem. Eu digo drama, pois a meu ver, cada frase do autor estava carregada de emoção. Adorei!
    Um beijo amigo e prepare-se para o próximo!
    Blog Monykisses

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    1. Aqui me preparando ansiosamente!
      Muito obrigado! Foi um livro muito lindo de ler.

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  5. Oi, Jônatas, somente agora tive acesso à sua resenha sobre meu livro. Obrigado por ter destacado tantos elementos que julgou positivos na construção dá trama. Foi livro que gostei muito de escrever sobretudo pelo que ele contém de catarse biográfica, como tu nem percebeu. Meu abraço e meu obrigado. Um livro só existe quando é lido.

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