[RESENHA] "O Tempo e o Vento: O Continente 1" de Érico Veríssimo

domingo, dezembro 15, 2013



A minha relação com este livro começou da mesma forma que a saga de “O Tempo e O Vento” começa, por coincidência ou destino:

“Era uma noite fria de lua cheia” (pag,1)

“O tempo e o Vento” é uma série de livros escrita por Érico Veríssimo a qual possui como pano de fundo, a história do Brasil, mais especificamente a história e formação do sul do Brasil. São 7 volumes que retratam cerca de 150 anos de história de uma mesma família e suas gerações.

O primeiro livro “O Continente 1”, narra 4 histórias, sendo 3 (A fonte, Ana Terra. Um certo Capitão Rodrigo) com começo, meio e fim; e uma (O Sobrado) divida em 3 capítulos, sendo esta podendo ser considerada a história central e ‘amarradora’ de toda a saga.


O livro inicia-se em um clima tenso. Período de guerra, no ano de 1895. Somos apresentados, então, a família Cambará, agora acuada pelos “maragatos” em seu sobrado na cidade de Santa Fé: sem comida, sem água, com pessoas a beira da morte, mulheres grávidas, sem um pingo de esperança.


Para se entender como a situação chegou a esse ponto e quem é essa família somos levados para o ano de 1745, 130 anos antes, época em que os jesuítas estavam no Brasil a catequizar os índios. Em “A Fonte” tudo é focado na história e relação entre Padre Alonzo e o indiozinho Pedro, este um menino muito especial, que tem visões do futuro e até do presente. De inicio a história parece fora de contexto, como um peixe fora d’água, mas, como sempre, para saber é sempre preciso virar a página.

Como se fosse um respiro, voltamos ao Sobrado e nos deparamos novamente com aquela família. Conhecemos um alguém muito marcante: a velha Bibiana, e será a partir dela que conheceremos a história de uma das personagens mais fortes e inesquecíveis da literatura: Ana Terra.

“Sempre que me acontece alguma coisa importante está ventando” costumava dizer Ana Terra.

Ana terra e sua família pode-se dizer viviam no meio do nada, num deserto verde, viviam da agricultura, isolados da cidade, indo a ela só para vender suas mercadorias. Os Terras são gente de bem, assim como são “cabeças-duras”, fortes, orgulhosos, com personalidade forte.


Ana é uma jovem muito bonita, única filha mulher o que deixa Maneco Terra super alerta, principalmente quando Pedro (SIM, o mesmo indiozinho da primeira história), começa a trabalhar em sua casa.

Ana e Pedro se apaixonam o que traz a tona um terrível e desastroso conflito familiar, que explode ao mesmo tempo em que um conflito civil começa acontecer.

Ana Terra é uma personagem que luta verazmente por aquilo que acredita e sente; é forte mesmo com o mundo caindo, e mesmo quando não há mais lugar e esperança, levanta-se e segue, dá continuidade a família, sendo ela no futuro a avó de Bibiana. Duas mulheres que muito bem poderiam ter existido de tão verossímeis que são.

Em uma breve volta no Sobrado lemos uma das mais lindas e singelas sequências literárias. Logo depois , é justamente sobre Bibiana e seu romance com “Um certo Capitão Rodrigo” que o livro mostra estar chegando ao seu ápice.


Capitão Rodrigo é um homem que encanta a todos com seu discurso, inclusive o leitor, assim que chega à Santa Fé. Rodrigo é fanfarrão, amante de uma boa guerra, de uma boa briga, e de uma boa noite de prazer com alguma rapariga. Apaixona-se por Bibiana, com quem se casa, mesmo a contra gosto de seu pai.

Bibiana torna-se uma mulher tão forte quanto sua avó. Casada com Rodrigo suporta todos os erros de Rodrigo; O espera todas as vezes que parte com seu cavalo. As atitudes deles nos deixam em um estado revolta, assim também como os seus contrapontos nos fazem admirá-lo, compreendê-lo. 

Nesta história você vive em estágio de tensão até o fim, principalmente quando, aqui, estoura a Guerra dos Farrapos. Prepara-se para momentos cruéis, incríveis, lindos e inesquecíveis.

O livro chega ao fim com um “quê” de naturalidade e tensão o que instiga “matar e morrer” pelo segundo volume.

Editora Globo, 34º edição, 1997.
A escrita de Érico Veríssimo é encantadora, assim como sua criatividade e destreza de criar enlaces fantásticos entre as histórias que apresenta, com objetos tão simples.

É uma história que se o mundo não soubesse ter sido escrita por um homem, com toda a certeza poderia ser um relado de histórias verídicas.

Foi um livro que me marcou e me fez ter inúmeras sensações até a última frase. O tempo e o vento são elementos bastante presentes na trama, só lendo para saber como. Ele possui críticas severas a muitas coisas; criticas que vão direto ao ponto, mas com uma linguagem extramente sofisticada, em termos de literalidade. O que é lindo de ler.

É difícil resumir em poucas palavras um livro tão complexo e gostoso de ler, mas posso dizer que o tempo investido lendo esta obra prima não será, jamais, em vão. Cada páfina nos traz razões e emoções inimagináveis, cada palavra está lá porque tem que está lá escrita no seu lugar certo. Nada se retira. É um livro que podemos chamar de Grande Literatura.

Por Jônatas Amaral

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4 comentários

  1. Uau, Jônatas! Que fôlego, hein. Achei ótima sua descrição da estrutura do livro... Gostei tbm das fotos que vc colocou intercalando com o texto. Nossa, isso sim é uma resenha. Nunca li nenhum desses volumes do Veríssimo, mas sua escrita me instigou bastante pq é do tipo de leitura que gosto.
    .
    Realmente achei super ótimo e vc ganhou uma fã. Nos vemos nos próximos posts.
    leiagarotaleia.blogspot.com.br

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    1. Muito obrigado Andressa.
      Fico feliz que meu texto tenha instigado a leitura desta obra que se tornou uma das minhas favoritas.

      Muito obrigado!
      Até mais!

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  2. Ótimo texto de resenha. Meus parabéns! Amei a maneira que vc usou para se expressar, me fez se interessar pelo livro....mas vc já leu o livro reverso... se trata de um livro arrebatador...ele coloca em cheque os maiores dogmas religiosos de todos os tempos.....e ainda inverte de forma brutal as teorias cientificas usando dilemas fantásticos; Além de revelar verdades sobre Jesus jamais mencionados na história.....acesse o link da livraria cultura...a capa do livro é linda ela traz o universo como tema.
    http://www.livrariacultura.com.br/scripts/resenha/resenha.asp?nitem=78725243

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  3. Eu li até agora o Vol. 1 de o Arquipélago. Pra mim os melhores são o continente Vol. 1 e Vol.2. Eu tive a mesma sensação que você. É uma obra máxima, mágica, literalmente um diamante. Não conseguiria encontrar adjetivos suficientes para qualificá-la. Érico Veríssimo, de forma espetacular, faz com que todas as sensações sejam flamejadas integralmente.

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