"A Ilha dos Cachorros" (Isle of Dogs, 2018) de Wes Anderson


Acredito que muitos já ouviram falar do cinema de Wes Anderson. Provavelmente, "O Grande Hotel Budapeste" é o primeiro filme que virá a mente de muitos de nós ao ouvir o nome do diretor, afinal o icônico filme foi bastante aclamado e é bastante marcante. Contudo, p primeiro filme que assistir do diretor foi "O Fantástico Sr. Raposo" (2009) durante um evento acadêmico em uma Universidade do Pará. A partir desta animação eu pude ter contato com a famosa simetria tão característica do diretor, os movimentos verticais e horizontais - quase teatrais - de câmera, as narrações em off que evoluem a trama. De imediato eu pensei: "Isso aqui é animação para adultos". É um grande filme.

Após assistir a primeira animação do diretor, meu segundo contato com este foi justamente com o filme sobre o Hotel Budapeste. Não demorou para eu começar a pesquisar sobre o diretor. De fato, ainda não posso dizer que sou um grande conhecedor de sua filmografia, afinal "A ilha dos cachorros", segundo filme de animação do diretor, é o meu terceiro contato com a sua obra.


Lançado e aclamado em Festivais, neste filme Wes Anderson nos traz uma história com seu típico estilo e, a meu ver, muito mais palatável para crianças e  pré-adolescentes, ainda que em geral o filme trate de assuntos muito adultos, e tenha um estilo que as crianças não devam se interessar com muito facilidade. Mas é possível.

Temos, então, uma história sobre uma cidade em que uma doença tem afetado os cães e o governo decide exilá-los em uma ilha, mesmo que haja uma possibilidade de cura. É um governo ditatorial. Um garoto chamado Atari decidi ir até esta ilha atrás de seu cachorro Spots. Na ilha há uma divisão bastante clara entre os cachorros, já que estes também foram criando formas de viver naquele lugar tão selvagem, sujo e precário. Organizações começam a reivindicar direitos aos cachorros e  o governo vai querer eliminar de vez os pobres cachorros.

Todas as características já conhecidas do diretor estão presentes nesse filme, o diferencial está no trato do roteiro e dos seus personagens. Os protagonistas são os cães e você realmente se importa, os entende, tudo nos leva a torcer por eles. Todos eles falam inglês. Porém, a história se passa no Japão. O Atari, como um bom japônes, fala a língua japonesa. Não espere legendas. A maioria dos diálogos dos humanos são em japônes e poucos deles são traduzidos - quando o são geralmente são pela voz de uma personagem tradutora - muitos deles tendo que ser compreendidos pelo contexto. É uma escolha bastante arriscada, mas interessante, pois no universo faz sentido. Contudo, algumas cenas perdem peso quando você não compreende o que está sendo dito, parece menos importante. E acaba que focalizamos apenas na fala dos cachorros mesmo, já que ela é minimamente compreensível.

O filme é bastante atual e traz reflexões muito interessantes sobre regimes totalitários, convívio em sociedade, a forma como propagamos nossas ideias, há um paralelo com a situação dos imigrantes, corrupção, manipulação midiática. Está tudo ali em volta de uma história de amor entre um humano e seu cão.

A animação em stopmotion tem uma elegância inacreditável, além de uma perfeição de fazer os olhos sorrirem. Cada detalhe é muito bem cuidado. Existe algo nesse tipo de animação que a torna, a meu ver, mais interessante, pois é muito mais palpável do que as animações feitas apenas por computação gráfica. Ainda não identifiquei o real motivo de pensar isto. É a mesma reação que eu tenho quando um vejo um filme feito em 2D. Tem uma magia diferente ali.


Durante um filme, existe alguns temas musicais muito recorrentes na trilha sonora que é baseada em sons bastante evocativos da cultura japonesa, muitos tambores, tímpanos, bastante minimalista em muitos aspectos. Algo, porém, saltou aos meus ouvidos. Um tipo de assovio que os cachorros utilizavam para se comunicar e para expressar determinadas coisas sendo tais sons parte, também, da trilha sonora. Constantemente me peguei fazendo uma interligação com a trilha  de "A forma da água", com aquele assovio tão marcante e mágico. Ao fim do filme, durante os créditos, descobrir o porquê da minha relação tão direta: ambas foram criadas pelo mesmo compositor, Alexander Desplat (que ganhou o Oscar na categoria esse ano). É algo muito bom, que dá ritmo a história e ajuda a contá-la.

Assista no idioma original. Scarlett Johansson mais uma vez faz uma excelente atuação com a sua voz. 

Quando chego ao fim do filme, percebo que o estilo do diretor é bastante interessante. E a história é bastante simples em geral, por isso o meu parecer de que ela é minimamente acessível a um público mais infantil, ainda que seja mais relevante ao público adulto. É um filme bom, carente um pouco de emoção. Um tanto confuso em alguns momentos, principalmente quando somos limitados diante do desconhecimento da língua japonesa. Nesses momentos parece que estamos perdendo algo muito importante. Fez falta as legendas. É divertido e muito bem feito. Espero vê-lo nas premiações na categoria de Melhor Animação. Aproveite o filme.



Por Jônatas Amaral




"OS INCRÍVEIS 2" (The Incredibles 2, 2018): Eu tô muito feliz.



Eu cheguei faz mais ou menos umas duas horas da sessão de "Os incríveis 2" e gostaria de dizer, inicialmente, que estou muito feliz. Valeu a pena esperar. E espero que assim que terminar de ler esse texto, se ainda não foi ver, você corra para o cinema ou para o site do cinema do seu coração e compre seu ingresso e vá aproveitar essa história.

Quando o primeiro filme estreou ainda não havia o Universo Marvel nos cinemas, ainda não havia a tentativa de Universo DC, ainda não havia as transgressões dos filme de anti-heróis. Havia o primeiro "Homem Aranha", por exemplo. Havia filmes esparsos de super heróis. "Os incríveis" vieram oferecendo algo diferente, como diria o crítico Tiago Belloti: dois filmes em um. Um filme de uma família de super heróis e um filme sobre a dinâmica familiar. Era divertido, com uma criatividade visual e de roteiro impecáveis. Era necessário uma continuação. Sim, é raro dizermos isso, mas todo o universo esperava uma continuação dessa história e veio, depois de 14 anos, mas veio. E tudo o que tinha de bom no primeiro está novamente no segundo e ainda oferece um pouco mais.

Eu não sei como uma criança viu esse filme, mas me divertir junto com elas na sala de cinema. E geralmente me incomodo com o movimento constante no cinema, mas dessa vez não. Elas estavam imersas no filme e animadas com ele. Não era uma agitação de "quero ir embora, tá chato"; era um animação genuína produzida por aquilo que elas estavam vendo em tela, que era muito bom. 

Os adolescentes comentaram aquilo que, de fato, era a fraqueza do filme: o vilão. O plano era meio desengonçado e a motivação não fazia sentido. Eu, sinceramente, não liguei. Eu me deixei levar, pois se você racionalizar todo vilão de história de super herói você vai perceber que nem todos tem realmente uma boa motivação ou são muito inteligentes. O ódio e o ego, às vezes, nos cegam. (E lá estou eu tentando colocar um significado filosófico em alguma coisa, e, talvez me contradizendo levando em consideração alguns posts anteriores).

O que quero dizer é que o filme é previsível em diversos aspectos, o vilão não é cem por cento bom, mas oferece grandes momentos. A forma como ele age é muito tensa e muito divertida também. Você sabe quando algo foi bem feito quando você olha para plateia e você encara todo mundo em silêncio, vidrado na tela, com expectativa. É soberbo.

O humor do filme surge naturalmente a partir das situações criadas e identificáveis. Surge das referências (não tenha medo de assistir dublado, você vai se divertir da mesma forma). Assim como se vale da sátira para estabelecer um comentário social, sem ser jogado na sua cara. Faz parte da história, do contexto e se torna engraçado, também. É assim que se faz um alívio cômico, assim que  se faz um filme divertido. Não é só para fazer rir por rir, é para gerar o riso, mas, ao mesmo tempo, ser relevante na sua proposta, no seu tema, fazer refletir se divertindo. A Pixar é, realmente, pós-doutora nisto.


Após sair da sessão, pense por um momento e perceba o quanto foi interessante ver um filme que trata de empoderamento feminino, da inversão de papéis da organização familiar mais comum, sobre o valor da família num filme voltado prioritariamente para o público infantil. E pense mais um pouquinho que milhares de crianças estão assistindo. 


Eu sair feliz do cinema pela qualidade daquilo que eu tinha visto, apesar dos poréns técnicos de roteiro que serão tão evidenciados. Sinceramente, nesse momento a diversão e a forma como ele me divertiu foi o que valeu mais a pena. Será que é pedir muito um "Os incríveis.... 3"? 

 Por Jônatas Amaral.

[CRÔNICA DE CINEMA #4] "JURASSIC WORLD: REINO AMEAÇADO" (2018)


Em 2015, eu escrevi um texto acerca do incrível "Jurassic World", um filme que introduziu às novas gerações o encantamento, os questionamentos e aventura do universo criado por Michael Crichton e levado às telas de cinema, pela primeira vez,  por Steven Spielberg, em 1993. Era um filme bastante saudosista, mas que atualizava a série com novas questões, novos personagens. Era como ter novamente aquele encantamento inicial. Era maior e bastante respeitoso as suas raízes.

Cerca de três anos depois, chegou aos cinemas a continuação intitulada "Jurassic World: Reino Ameaçado" (Jurassic World: Fallen Kigdom). Filme este que pude conferir ontem (27/06/2018) nos cinemas, e nesta crônica gostaria de falar sobre algumas características deste filme, além de algumas questões que envolve um comportamento dentro de um cinema.

Aviso, contudo, que em alguns momentos haverá alguns spoilers

JURASSIC WORLD: UMA NOVA ERA

Eu tive a oportunidade de ir ver o filme novamente com os meus pais e isto é algo importante já que foram eles que me apresentaram a esse universo, me permitiram me envolver e incentivaram. Os filmes anteriores foram parte da minha infância e lembro muito bem o quanto era incrível quando eles passavam na TV e minha família inteira se juntava para assistir.

A questão era se o novo filme conseguiria ir além e me apresentar algo novo. Se ele funcionaria como diversão e como cinema. Assim, acredito que a franquia sempre será sinônimo de diversão, porém como cinema a franquia precisa ter muito cuidado para não se perder ou mesmo não saber criar ou manter um determinado clima.

Ao sair do cinema eu percebi o quanto o inicio do filme foi uma decepção. Praticamente os trailers já entregavam tudo o que ali acontecia, porém ver tudo aquilo sendo destruído teria muito mais impacto se os alívios cômicos não existissem. O personagem de Justice Smith (Franklin) enfraquece as cenas. Uma cena de encantamento com um braquiossauro termina de uma forma besta por conta dele. Seu medo exagerado nos tira do filme, faz rir (isso se ele fizer você rir) quando, na verdade, deveríamos está temendo pela vida dos dinossauros e dos personagens principais. Esse é um mal que advém da fórmula Marvel de fazer cinema. Nunca ser sério demais. Nunca deixar o clima pesar. Sinceramente, isso é subestimar seu público. Fazer algo ser divertido não é só fazer rir. Os alívios cômicos devem vir no momento certo para que não sejam desnecessários ou joguem contra a narrativa. Nesse filme, isto acontece, principalmente no inicio.

Um exemplo de alívio "cômico" inteligente é a personagem Zia Rodriguez (Daniela Pieda) que é inteligente, sarcástica, irônica nos momentos certos, com muita personalidade para inclusive ser uma protagonista. Eu gostaria muito de ver mais dela em cena. 

Em contrapartida, o filme me encanta por arriscar em apresentar uma história com pitadas de terror e com mais ficção científica. A história bebe muito do seu material fonte ao tratar sobre a genética, sobre a forma como o ser humano lida com a natureza, e isto pode ainda ser melhor explorado. Basta querer. O final abre possibilidades a serem exploradas com riqueza e que podem superar muito a simples ação barata de dinossauros perseguindo a vida humana ou vice versa, algo próximo talvez do que foi a franquia "Planeta dos Macacos", com um pessimismo mais suave, talvez.

MOMENTO DE SPOILERS


Pule este trecho se você ainda não viu ao filme. Fica por sua conta e riscO filme traz de volta a ideia de um dinossauro geneticamente modificado como o grande vilão do filme. Isso é interessante, pois vai muito de encontro com a concepção de Spielberg de não transformar seus dinossauros em monstros. Os dinossauros feitos para o parque são vistos como animais em sua essência, mesmo que eles já sejam um tipo de clone, e nunca como algo que precise ser abatido. Porém, quando criamos algo não natural como a Indominus Rex ou o IndoRaptor eles permitem que isto seja visto como monstruosidade, algo que precisa ser morto. Isso é interessante. É uma máquina de guerra, não é um animal. Ainda que isto possa ser claramente relativizado com razão. Afinal, ali temos um coração batendo, um cérebro pensante. 

Outro fator interessante neste filme é a ideia de clonagem humana. A personagem Maisie é uma das melhores do filme e com o acréscimo dela ser uma humana clonada a torna ainda mais interessante. É injetar na franquia algo em um novo patamar. Em uma das cenas finais, os dinossauros resgatados da ilha estão presos dentro de um salão com jaulas, com o risco de serem mortos por um gás que no meio da confusão foi liberado. A decisão fica para Owen ou Claire: Libertá-los ou não? Caso sim eles entrariam no mundo dos humanos e não haveria mais como controlar. Claire, ainda que tentada a fazer, diante do seu dilema moral e civil decidi não fazê-lo por puramente medo. Contudo, Maisie, já sabendo que é um clone feito com a mesma tecnologia usada para criar os dinossauros, os liberta.

A fala da personagem mostra bem uma concepção que, talvez, no momento muitos nem se permitiram pensar. Se ali estivessem uma pequena dezena de crianças clonadas que colocassem em risco muitas da questões morais dos seres humanos, elas deveriam ser deixadas para morrer? Afinal não seriam elas humanas também, mesmo sendo fruto de um procedimento genético? Não pareceria certo, não é? Então, por que pareceria certo e sensato fazer isso com animais, mesmo que estes já estivessem extintos e fossem muito perigosos? Eles não continuariam sendo animais? Seres vivos? Mesmo que fossem fruto de um experimento genético?

Por que o ser humano não tem respeito pelos seres vivos que não sejam humanos? Por que só queremos que algo seja bem tratado se isso for humano? Por que a natureza com suas inúmeras formas de vida podem ser exploradas sem qualquer tipo de solidariedade? Se não é humano, não importa? São questões que perpassaram pela minha mente durante essa cena, que pra mim foi a melhor do filme, a que mais me gerou impacto.

FILME NARRADO por espectadores - UM BREVE REVOLTA

As pessoas não se permitem refletir sobre algumas coisas quando estão assistindo a esses filmes.Talvez seja fruto da edição do filme ou seja mesmo a falta de interesse de querer se debruçar sobre questões mais sérias, dentro de um filme de ação e ficção. Não estou dizendo que todo mundo tem que ir pro cinema para problematizar alguma coisa, as vezes é puramente diversão. Mas, quando um filme te apresenta algo desse tipo, talvez parar pra pensar sobre seja um exercício que pode nos enriquecer intelectualmente.

Porém, não é exatamente isto que me incomodou nesta sessão. Eu estava do lado de um casal que simplesmente narrava o filme: "Olha, ele pegou o ovo", "Agora ele saltou, agora ele vai cair", "Ela se deitou", "Ele entrou, sai daí". Assim, existe uma diferença muito grande de você fazer um comentário, expressões de tensão, sustos, risos involuntários, e narração de coisas óbvias que você está vendo. O cinema é algo visual. Eu não preciso de alguém me dizendo o que está acontecendo na tela, se eu estou vendo. Isso incomoda. Tanto é que um filmes extremamente explicativo e didático é considerado pobre narrativamente.


Todos tem direito de fazer o que quiser, só que a nossa liberdade termina quando a do outro começa. Se você é alguém que gosta de ficar falando durante filme, crie o hábito de fazer isso de forma a não atrapalhar aqueles que não gostam disso. Muitas vezes, filmes são estragados por esse tipo de pessoa que não sabe ficar quieto, calado. Você pode fazer um comentário ou outro, mas falar o filme inteiro e pior narrá-lo? É algo extremamente chato e inconveniente. 

É como eu disse, as pessoas tem o direito de se divertir, fazer comentários, se divertir da sua forma. É normal e está tudo bem, mas desde que isso não atrapalhe a experiência do outro. Muitos vão dizer que isso é frescura ou chatice de minha parte, mais experimente assistir a um filme que uma pessoa está o tempo todo falando do seu lado. Principalmente um filme que você quer muito assistir e se envolver.

Eu como expectador crio um sistema de defesa para não discutir com essas pessoas no cinema. Eu tento focalizar a minha mente inteira para o filme o máximo que eu posso e, às vezes, dou um pequena chamada de atenção gentilmente. Mas, tem hora que não dá. Talvez, isso tenha atrapalhado a minha experiência em algumas partes desse filme. Talvez, a tensão que o diretor quis proporcionar não tenha me alcançado de uma forma satisfatória por conta de ter comentários altos no meu ouvido durante a projeção. Por favor, se você faz isso, me diga por que você o faz? 

 Desabafo feito.

AFINAL, O FILME VALEU A PENA?

O filme é previsível? Bastante.
O filme inova? Em algumas questões.
O filme é bom? É bom, mas prefiro o primeiro.

"Jurassic World: Reino Ameaçado" é um filme divertido, com momentos de tensão incríveis. É um filme que têm personalidade apesar de ainda ser bastante saudosista e previsível. Estabelece referências de forma inteligente a partir de jeitos de se filmar, posicionamento de câmeras, falas. Coloca novas questões e abre caminhos que podem ser bem explorados na mão de um bom roteirista e um bom diretor. 

Se divirta com esse filme sem atrapalhar as outras pessoas. Não se permita sair dele e de nenhum filme sem pensar em alguma coisa importante que ele traga nem que seja por cinco minutos. A franquia Jurassic Park é algo incrível que pode te oferecer mais do que apenas uma diversão escapista.

Por Jônatas Amaral

[ #Oscar2018 ] As qualidades de "Dunkirk" de Christopher Nolan


"Dunkirk" de Christopher Nolan é o filme de guerra da vez no #Oscar2018. Se ano passado a Academia valorizou bastante a emocionante história de um homem que decidi ir para a guerra, mas sem nenhuma arma em "Até o último homem" de Mel Gibson, este ano a Academia volta seus olhares para um filme que não tem personagens com quais possamos definitivamente nos envolver emocionalmente, mas que apresenta uma situação de guerra desesperadora de forma quase impecável tecnicamente.

Este filme foi lançado no meio do ano de 2017 e fiz a excelente escolha de assisti-lo no cinema. Dentre os muitos filmes que assistir nas telonas, "Dunkirk" certamente foi uma das minhas melhores experiências. Enquanto que "Gravidade", por exemplo, me ofereceu uma experiência em 3D inesquecível; enquanto que "A Invenção de Hugo Cabret" me ofereceu uma experiência emocional com a sua metalinguagem; enquanto que "Jurassic World" me ofereceu uma experiência pipoca e nostálgica vibrante, "Dunkirk" entra nessa lista como um filme que me ofereceu uma experiência sonora e sensitiva impactante.

O filme, em sua base, é a história sobre o cerco de Dunquerque: local onde estava o exército formado pela Bélgica, França e Inglaterra durante a Segunda Guerra Mundial,cercado pelo exército alemão. O filme conta três períodos de tempo simultaneamente para mostrar como foi o resgate deste exército que contou principalmente com a ajuda de civis. Dentro desse contexto há uma série de personagens ou tentando fugir do cerco ou tentando salvar o exército. Ou seja, há uma história de alguns soldados em terra que dura cerca de alguns dias; há uma história de um civil que decide atravessar o canal da mancha com seu barco para auxiliar no resgate que se passa em um dia; e há a história de um piloto que age para quebrar os ataques aéreos alemão, história que se passa durante uma hora. O brilhantismo do roteiro consegue fazer uma interligação dessas histórias de forma coerente, ainda que confusa em alguns momentos.


Mas, veja, eu não consigo lembrar dos nomes dos personagens. Eu não lembro exatamente dos porquês. Mas, eu lembro perfeitamente da sensação criada por essas histórias, o sentimento de angústia por ver as coisas indo de mal a pior, o sentimento de impotência que eles carregam, lembro do sentimento de luto que permeia a narrativa. E, principalmente, eu lembro do suspense e do impacto criado pela trilha sonora, pela edição e mixagem de som.

A trilha sonora utiliza dos próprios sons de aviões caindo, dando rasantes, além dos próprios tiros e do movimento das hélices na sua melodia caótica. A trilha sonora possui um "tique taque" incessante que permeia todo o filme transferindo ao espectador a sensação de que há uma corrida contra o tempo. É um filme que diz muito a partir daquilo que seus elementos audiovisuais possibilitam. Não é um filme verborrágico como outros filmes do diretor. É um filme com pouquíssimos diálogos, com pouco desenvolvimento de personagens. O foco é a situação, o desespero da situação. É um convite para experimentar sensorialmente um dos momentos de guerra.


A cenas aéreas são espetaculares visual e auditivamente. Os tiros assustam. O inimigo não tem um rosto e sempre está a espreita. 
O que talvez falte a este filme é uma forma de se estabelecer um envolvimento emocional com seus personagens. A falta de desenvolvimento destes é proposital, e sinceramente para mim não fez falta alguma, porém para muitos isto pode ser um grande problema no momento de apreciar o filme. Esta é uma obra no qual é necessário que o espectador se engaje em viver aquilo, se desligue e se conecte a situação; que reflita: "se eu estivesse nesse situação, o que eu faria?". 

O filme foi indicado a 8 Oscars: Melhor Filme, Melhor Diretor (Christopher Nolan), Melhor Trilha Sonora, Melhor Fotografia, Melhor Montagem, Melhor Mixagem de som, Melhor Edição de Som e Melhor Direção de Arte. Com chances reais nas categorias técnicas de som.


Para este que os escreve, "Dunkirk" é um dos melhores filmes de guerra já feitos. Sem se apelativo ou recheado de sentimentalismo brega. É um filme que traz algo de novo para o gênero e consegue oferecer algo inesquecível em termos de suspense e ação. Eu não entendo o porquê do hate com esse filme. É, para mim, um do melhores filmes do ano, sem dúvida.

Por Jônatas Amaral

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A FORMA DA ÁGUA // ME CHAME PELO SEU NOME //

[ #Oscar2018 ] "A Forma da água" (The Shape of Water, 2017): Por que tão aclamado?



As primeiras cenas de "A forma da água" (The Shape of Water) nos imerge em um ambiente que está entre o fantasioso e o real de forma muito tênue. São cenas que usam a luz, efeitos especiais digitais e práticos que oferecem um aspecto subaquático que são inesquecíveis. As primeiras notas da trilha sonora são tocantes. A direção de arte cria algo belo. A primeira cena de Sally Hawkins como Elisa é cativante; Octavia Spencer apresenta uma performance ótima como sempre. Guilherme Del Toro dirige e roteiriza o filme que oferece uma mensagem contra a intolerância envolva em um trama que envolve romance, estranheza, conspiração no meio de um Estados Unidos envolto na Guerra Fria. 

Resumi rapidamente as grandes qualidades do filme que, inclusive, foram lembradas pela Acadêmia de Artes Cinematográficas, que ofereceu a honraria de 13 indicações ao #Oscar2018: Melhor Filme, Melhor Diretor (Guilherme Del Toro), Melhor Atriz (Sally Hawkins), Melhor Atriz Coadjuvante (Octavia Spencer), Melhor Ator Coadjuvante (Richard Jenkins), Melhor Roteiro Original, Melhor Trilha Sonora, Melhor Fotografia, Melhor Montagem, Melhor Figurino, Melhor Mixagem de Som, Melhor Edição de Som e Melhor Direção de Arte.

Afinal, por que este filme se tornou tão aclamado e se tornando um grande favorito a receber a grande honraria do cinema?

Alguns podem se surpreender se souberem que "A Forma Da Água" foi o primeiro filme do diretor Guilherme Del Toro que assistir. Ele já foi responsável por filmes aclamados como "O Labirinto do Fauno", "HellBoy" e "Colina Escarlate", filmes estes que tem forte apelo para a fantasia e para a criação de monstros inesquecíveis. É um diretor mexicano que há tempos vem produzindo coisas incríveis e histórias inesquecíveis, segundo muita gente. Eu mesmo, no momento, só posso avaliar pelo filme em questão.

Michael Shannon, Sally Hawkins e Octavia Spencer
"A Forma da Água" se torna algo memorável inicialmente pela sua trama central: Um mulher muda que se apaixona por um homem anfíbio. Elisa é a faxineira de um laboratório secreto do governo, e tem na sua amiga Zelda e no seu amigo Giles um porto seguro. Esses personagens estão inseridos em um contexto histórico recheado de intolerância e preconceito, de ânsia pelo poder, por controle e supremacia cultural. Uma mulher muda, um homem gay, uma mulher negra e um anfíbio são os personagens que nos conduziram por uma trama que desenvolverá de forma lúdica, sensual, assustadora e eletrizante em momentos diversos durante a narrativa.

Sally Hawkins (Elisa)
É de se esperar que em um filme de fantasia não haja uma preocupação de que tudo seja muito bem lógico, contudo o filme desenvolve o romance de Elisa com a criatura de forma muito rápida, o que não a torna tão verossímil logo de cara. OK. Um romance desses já não seria verossímil e de fato é complicado tornar isso lógico. É verdade e não estou dizendo que ele não se torna verossímil, apenas acredito que toda a relação acontece de forma um tanto acelerada no primeiro ato do filme. Fiquei um tanto em dúvida para onde o filme iria. Onde ele queria chegar com essa história?


É neste ponto que é necessário falar daquilo que chamo de 'inserções' no roteiro. Essas inserções são breves cenas e diálogos que nos transportam para coisas do nosso cotidiano, conflitos da sociedade que fazem toda a história fantasiosa ter um significado, um sentido. Questões como racismo, homofobia, machismo são inseridas no roteiro e ajudam a contar a história romântica que a meu ver tem como tema principal a mensagem de tolerância, respeito e humanidade.

"The shape of water", portanto, é um filme belo e como entretenimento é muito bem realizado, além disso é um filme importante para o momento em que vivemos, sendo uma linda metáfora sobre o que nos faz humanos. Em uma entrevista, o diretor conta que esta história é uma das suas histórias mais pessoais e conversa muito com aquilo que ele mais se preocupava aos 53 anos. É um filme que não teria base nas ideias da infância, mas nas preocupações deste como adulto. Confira AQUI!

Guilherme Del Toro (Diretor) e Doug Jones (Homem Anfíbio)
Se pararmos para pensar, o filme é um daquelas obras primas cinematográficas de um diretor. Seja nos aspectos visuais e técnicos, seja no roteiro e nas atuações, tudo é muito bem realizado. Ainda que o final te deixe um tanto sem respostas ou que não seja aquilo que queríamos, este nos transporta para um mundo da fantasia, mas que nos faz pensar sobre o nosso próprio mundo real. O cinema é uma dessas artes de escape da realidade que pode nos fazer pensar e mudar a realidade.


Estes e outros muito motivos tornam este filme memorável e tão aclamado. Ainda que ele não seja meu favorito pleno da temporada, este com certeza é um dos mais belos filmes do ano e que merece sim todo o crédito e elogios do mundo.

Por Jônatas Amaral


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DUNKIRK // ME CHAME PELO SEU NOME //